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Loving strangers

Eu estava cansada de ter passado as últimas 15 horas ou mais em dois voos diferentes, sem ter dormido praticamente nada e ainda esperando pelo terceiro e último voo daquela conexão até o meu destino final. Apesar de todo o cansaço, o medo me fazia estar acordada e desperta. Era a minha primeira vez sozinha, num aeroporto enorme e num país estranho, tentando me encontrar fazendo uso apenas do meu senso de direção que beira o ridículo. Além de tudo, eu não fazia ideia do que me esperava à frente. Fui embora de casa com um sentimento mórbido de que estava vendo tudo pela última vez: minha casa, meu cachorro, meu pai... Pensando agora, fico aliviada de saber que meu sexto sentido é tão ridículo quanto o meu senso de direção.

Em meio a tantos sentimentos, meu estômago falou mais alto e me lembrei que antes de sair de casa havia guardado na mochila um pacote de cookies para o caso de uma emergência. Esse era o momento. O único problema é que a mochila estava pendurada no fundo da cadeira de rodas e estava tão pesada com toda a tralha que, assim como os cookies, serviriam para o caso de uma emergência, que eu não conseguia puxá-la para frente. Olhei para os quatro cantos em busca de alguém que pudesse me ajudar até que avistei um homem que usava aqueles coletes engraçados o que, para mim, era sinal de que ele era funcionário do aeroporto. Como ele não parecia ocupado, resolvi me aproximar e perguntar se ele poderia me ajudar a pegar a mochila que estava atrás de mim. Ele não foi rude, mas fez sinal para o balcão das atendentes e me disse que eu deveria pedir ajuda a elas. Não consigo entender até hoje o porquê de ele não poder me ajudar com algo tão simples, mas naquele momento isso foi suficiente para reforçar minha certeza de que eu não deveria esperar que os canadenses fossem tão gentis e amigáveis como os irlandeses. Ainda meio chocada com a frieza daquele homem, segui até o balcão como fui instruída e pedi ajuda à uma atendente que, para a minha surpresa, foi muito simpática e agradável ao me ajudar.

Voltei para o meu lugar, perto do portão de embarque para me certificar de que não perderia o voo, e então travei uma batalha com o pacote de cookies que não queria, nem por um decreto, ser aberto por mim. Já ia desistindo e me conformando em passar fome até o próximo voo que ainda demoraria cerca de uma hora, até que um homem ruivo de aparência gentil se ofereceu para abrir o pacote. Ele era jovem. Talvez tivesse menos de trinta anos. Ofereci-lhe um cookie como forma de agradecer a ajuda, mas ele não quis.

Ele puxou conversa e acabamos descobrindo que pegaríamos o mesmo voo. Descobri também que ele era de descendência irlandesa e automaticamente atribuí toda aquela simpatia a esse fato. Tinha que ser! Pegamos nosso voo, eu na fileira da frente e ele logo atrás de mim, e, por fim, chegamos ao nosso destino final. Na saída, depois de nos perdermos na tentativa de pegar nossas bagagens, ele passou por mim e deu tchau.

Por algum motivo, nunca esqueci aquele homem. Esqueci seu nome, é verdade, apesar de achar que ainda está em algum lugar na minha mente. Provavelmente nunca mais o verei ou saberei dele. Mas sabe essas pessoas que marcam a gente para sempre? Uma gentileza inesperada; um sorriso quando eu era só medo e desconfiança. Isso desarma a gente; dá esperança; isso aquece o coração. Aquela foi a minha primeira impressão daquele país estranho e frio. E foi a impressão que ficou.

Hoje me pego pensando se já marquei alguém assim. Um estranho na rua; aquele sorriso num momento em que só Deus sabe o quanto o coração está doendo. Isso me faz querer ter menos pressa ao descer do ônibus e correr como uma louca para bater o ponto no trabalho. Me constrange a ser mais paciente com a atendente de telemarketing estrangeira no telefone; aquela para quem eu tive que repetir meu nome umas três vezes hoje. Isso me faz ter um pouquinho mais de esperança na humanidade; talvez a minha própria humanidade.

Comentários

  1. <3
    Quando chegamos num país novo sempre estamos meio perdidos e de certa forma "frágeis", ainda mais sozinhas. Eu também me lembro do cara que carregou minha mala escada cima em Chicago, na maior friaca, mala pesada. Ou da família que ajudou eu e Mati a tirar a mudança da esteira chegando aqui na Suíça. São gestos que nos tocam porque vem no momento em que precisamos. É bom saber que há gente em volta atento ao aos outros. É bom também estar atento aos outros, acho que é melhor até pra quem ajuda do que pra quem é ajudado. Faz um bem danado.

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  2. Só queria comentar que o texto parece abertura de capítulo de livro. Consegui me transportar para a cena. FICA A DICA!
    Segundo, o primeiro pensamento que tive sobre o cara foi "que escroto", depois fiquei lembrando de algo que aconteceu comigo, eu recebi uma notícia avassaladora no hospital, estava em pânico, com medo e sozinha. Acabei indo em um mercado e uma senhorinha pediu algo, não consigo lembrar o quê, estava no mercado para não pensar, mas a senhorinha era uma daquelas fofas de filme sabe, ele tinha pedido algo simples, eu estava tão louca que minha reação foi "sorry, no english". Eu fui a escrota, sabe. A gente nunca sabe o que aquela pessoa está passando, mas eu espero que a senhorinha tenha encontrado um cara legal para ajudá-la. Cheiro!

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    Respostas
    1. É, vc tem razão. Tem os dois lados da moeda. Mas sinceramente não acho que era o caso dele. Pode ter sido algo do tipo a função dele não permitia esse tipo de tarefa. Isso existe, principalmente em aeroportos e sobre carregar malas.

      E olha, não é a primeira pessoa a me jogar essa indireta do livro rs. Mas não sei se tenho o que contar. O blog é mais de boa, textos sem relação, tudo pessoal demais. Mas quem sabe um dia.

      xx

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  3. Que linda história Paulinha! Bom que você voltou a escrever :-). A gente não tem idéia do quanto pequenos gestos e palavras podem marcar a vida de uma pessoa, não é mesmo? ESpero que possamos passar na maior parte do tempo coisas boas para aqueles que estão ao redor.

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