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Relatos de uma cadeirante em viagem de intercâmbio - Parte I

Sempre falo aqui sobre as minhas viagens de intercâmbio e, na verdade, uma das principais razões pelas quais criei esse blog foi para poder compartilhar dessa experiência, principalmente com outras pessoas que, assim como eu, possuem alguma deficiência. Isso porque o intercâmbio para cadeirantes ainda é algo incomum e lembro que, quando buscava informações sobre o tema, encontrei pouquíssimas coisas e ainda assim, nada contado pela própria pessoa, o que tornava os relatos bem impessoais. 

Mas apesar de sempre mencionar as minhas viagens por aqui, nunca fiz um relato completo de tudo que me aconteceu, porque, sim, foi uma luta. Então chegou a hora.

Em 2011, quando eu ainda estava na universidade, me inteirei de uma bolsa que o governo canadense oferece para estudantes latino-americanos. O programa se chama Emerging Leaders in the Americas Program (ELAP) e tem o objetivo de levantar líderes nas Américas. Como universidade tem alguns convênios no Canadá (o que é obrigatório para conseguir essa bolsa), o edital foi lançado e eu rapidamente me inscrevi. Na época o inglês já não era problema para mim. Fiz a seleção (dois testes de inglês e uma entrevista) e passei em primeiro lugar. Na verdade essa foi uma pré-seleção feita pela universidade para que eles pudessem, então, enviar nossa candidatura para o Canadá. Enviamos a documentação com tudo direitinho, incluindo uma letter of intent que é uma carta na qual você deve dizer, dentre outras coisas, o motivo pelo qual deseja estudar naquela instituição. Com isso feito, ganhei a bolsa.

Eu tava bem receosa pelo fato de ser cadeirante. Tanto que, antes de me inscrever, conversei com a secretária para assuntos internacionais da minha universidade e perguntei se haveria algum problema em me inscrever. Ela disse que não, que lá as coisas seriam até bem mais fáceis para mim. Também, antes de me inscrever, pesquisei um dos colleges (o que eu tinha mais interesse) e o site deles dizia que eles ofereciam todo o suporte para pessoas com necessidades especiais. Depois disso fiquei mais tranquila. 

Quando ganhei a bolsa, chegou a hora de fazer contato com o college. Aí foi que o perrengue começou. Eles ficaram absolutamente chocados com a ideia de receber um cadeirante em intercâmbio. O assessor internacional de lá esteve no Brasil naquela época e passou pelo nosso instituto. Fizemos uma reunião em que o diretor do campus e a assessora da minha universidade fizeram de tudo que puderam, mas, no fim das contas, o carinha do college simplesmente disse que eles não teriam condições de me receber e passou a minha bolsa pra um colega que tinha ficado na lista de espera. 

Até então eu era simplesmente maravilhada pelo Canadá e o sonho da minha vida era ir estudar lá. Não preciso dizer que, depois do acontecido, meu mundo simplesmente caiu e fiquei com a pior das impressões sobre aquele país. A forma como fui tratada, as razões pelas quais não me deixaram viajar, tudo isso me enojou ao extremo. Fazer intercâmbio era o meu maior sonho e eles simplesmente cuspiram no meu sonho e me negaram o direito de usufruir da bolsa que eu havia ganhado, não pelo college, mas pelo governo canadense.

Pra amenizar a situação, eles fizeram um acordo de que no verão do outro ano, ou seja, em 2012, eu seria mandada para lá (já sem a bolsa, porque essa eu já tinha perdido) para fazer um curso de verão de um mês (detalhe que, com a bolsa, eu passaria um semestre lá). Para isso, o college não cobraria as taxas do curso de verão e a minha universidade arcaria com as passagens e mandariam uma acompanhante comigo.

Tudo (quase) lindo. 2012 chegou e, com ele, a época de acertar os detalhes para a viagem. Só que, mais uma vez, o college deu para trás. Disseram que eles tinham muito receio de que algo acontecesse comigo e eu querer processá-los. Mesmo indo com uma acompanhante. No fim, o diretor da minha universidade, que  acompanhou toda a história e viu toda a sacanagem que eles fizeram comigo, me disse que era pra eu escolher outro país (aqui mesmo pela América Latina, por causa dos custos) e que o instituto me daria uma ajuda de custo para que eu fizesse um curso de línguas de um mês. No entanto, um amigo meu que vive na Irlanda (e que hoje é meu namorado), que também acompanhou toda a história, tinha bons contatos e, conversando com o pessoal do Language Centre da University of Limerick, me conseguiu um desconto bem bacana. Conversei com o diretor, ele topou e fui pra Irlanda com uma acompanhante (de minha escolha).

A recepção na Irlanda foi totalmente diferente. Fiz um curso de inglês de quatro semanas, mas fiquei no país por sete semanas. A bolsa cobriu o curso, a estadia e as passagens. O resto nós bancamos, mas, com certeza, sem a ajuda de custo essa viagem não teria sido possível. Vou contar mais sobre essa viagem no próximo post. Mas já posso te adiantar uma coisa: essas foram as sete semanas mais felizes de toda a minha vida. 

Continua...

Comentários

  1. Acho engraçado como as coisas são. Você queria muito ir pro Canadá, eu queria ir pra Alemanha, pra você não deu certo, nem pra mim, fomos pra lugares diferentes depois que nos surpreenderam. Mas nada disso justifica a sacanagem que fizeram com você e passarem A SUA BOLSA para o segundo colocado. Não tem outra palavra que não seja "sacanagem". Deixa eu ir lá ler a segunda parte, beijos

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    Respostas
    1. Pois é, Marcela. Mas sabe que, no fim das contas, fiquei muito agradecida a Deus pela forma como as coisas aconteceram. Graças a esse "não" outras portas se abriram para mim e me trouxeram coisas pelas quais serei eternamente grata.

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