Aí você já tá achando que os perrengues acabaram e que, a partir de agora, é tudo alegria. Antes sêsse. Sinto de desapontar (ou não, caso você seja daquele tipo de pessoa que curte a miséria alheia), mas a saga contínua. Sabe aquela expressão "fulano(a) sofre mais que suvaco de aleijado"? Apois. Nunca vi mais adequada... Senta que lá vem a história.
Na ida para a Irlanda, em junho de 2012, resolvi que compraria as passagens com uma agência de intercâmbios como uma forma de me certificar de que tudo seria feito corretamente. Ledo engano.
Na ida para a Irlanda, em junho de 2012, resolvi que compraria as passagens com uma agência de intercâmbios como uma forma de me certificar de que tudo seria feito corretamente. Ledo engano.
Como já mencionei aqui no blog, tenho uma cadeira motorizada, dessas que tem duas baterias no fundo. Como só conseguimos comprar essa cadeira em 2011, até então, todas as vezes em que havia viajado de avião tinha sido com a minha outra cadeira que é manual. Não há muito segredo em embarcar com a cadeira manual, é só avisar a companhia aérea. Aprendi com o passar do tempo que devo também pedir que coloquem um aviso de frágil na cadeira seja ela motorizada ou não. Não sei como fazem para armazenar a cadeira no bagageiro do avião, mas eles sempre conseguem quebrar algo. Lesson learned.
Avisei à agente de viagens sobre as minhas condições e sobre a existência da cadeira. Ela não me fez perguntas e nem eu imaginava que deveria entrar em detalhes. Resultado: ela avisou a companhia que eu tinha uma cadeira de rodas, mas não fez nenhuma especificação sobre o tipo de cadeira.
Planejei toda a viagem pra chegar lá com três dias de antecedência para ter tempo de me adaptar ao fuso horário e fazer o reconhecimento do local antes do começo das aulas. O itinerário ficou assim: sairíamos de Salvador no dia 21 de junho/2012 fazendo o trecho Salvador-São Paulo pela TAM, São Paulo-Amsterdã pela KLM e Amsterdã-Dublin pela Aer Lingus, chegando ao nosso destino final no dia seguinte.
No dia da viagem, chegamos bem cedinho ao aeroporto de Salvador e aí começou o fuzuê. Minha cadeira tem baterias de carro que, na época, eram do tipo líquida. Detalhe que eu não fazia nem ideia. A TAM fez o maior auê porque a KLM não tinha sido avisada das baterias e me disseram que eles me levariam para SP sem problemas, porque tinham as caixas para carregamento desse tipo de bateria (o que é um protocolo desta empresa), mas que chegando lá eu provavelmente teria problemas com a KLM porque eles deveriam ter sidos notificados com antecedência. Passamos a manhã toda tentando resolver o problema e, no fim das contas, o pessoal da TAM trocou minhas passagens dizendo que me levariam a SP e de lá para a Europa de onde eu pegaria outro voo para Dublin. Tudo certo. Na hora de pegar o voo para SP, eles descobriram que sim, tinham a tal caixa de proteção da bateria, mas só uma. Uma única caixa para todo o aeroporto de Salvador. Como disse, minha cadeira tem duas baterias. Resultado: perdemos o último voo para SP naquele dia e passamos (eu e minha acompanhante) a noite num hotel em Salvador. A TAM bancou tudo.
No outro dia, conseguiram outra caixa e embarcamos para SP. Chegando lá, quando fomos pegar o voo da TAM Internacional para a Europa, o pessoal de Guarulhos nos informou que a TAM faz sim o transporte daquele tipo de baterias, mas somente em voos nacionais. Ou seja, o pessoal da TAM do Aeroporto de Salvador, aparentemente, não sabia disso, né? Trocaram nossas passagens outra vez e, outra vez, passamos a noite num hotel. Dessa vez, nos colocaram para ir a Frankfurt com a Lufthansa e de lá, ainda com a mesma companhia aérea, voaríamos para Dublin.
Eu já estava uma pilha de nervosos, chorando e até achando que era o destino. Pensava que Deus simplesmente não queria que eu saísse do Brasil, só pode. Eu chorava de um lado, minha mãe chorava do outro, minha acompanhante/amiga e mãe do coração, Nelma, já a ponto de explodir de nervoso, e amigos meus que acompanhavam minha história desde os problemas com o intercâmbio para o Canadá, dentre eles minha mais fofa colega de trabalho Marla, tentavam de alguma forma me ajudar, denunciando o absurdo no facebook. Comecei a orar e, naquela noite no hotel, eu disse ao Senhor que tentaria só mais uma vez e que se algo desse errado de novo, entenderia aquilo como um sinal de que aquela era a vontade dEle e, sendo assim, voltaria a Salvador e desistiria da viagem.
Voltamos ao aeroporto no outro dia e, como você deve imaginar, já estávamos exaustas. Isso porque nesses dois dias em que tentávamos embarcar para a Irlanda, passamos o dia todo no aeroporto, estressadas, sem dormir e cansadas. Por fim, no embarque com a Lufthansa tudo foi tão simples que nem pude acreditar que finalmente estava dando certo. A empresa foi super profissional e, ao saberem que as baterias eram líquidas, simplesmente desconectaram e isolaram os cabos que ligam a cadeira à bateria. SÓ.
O resultado de tudo isso é que chegamos à Irlanda em pedaços, no dia 24 de junho, um dia antes do começo das aulas. Chegamos em casa tarde da noite (apesar de que ainda era dia por lá em função do verão) e acordamos cedinho no outro dia para irmos a aula. Só o caco.
Na volta, graças a Deus, deu tudo certo com a KLM. Isso, claro, depois de ter ouvido desaforo da agente de intercâmbio que fez a compra das passagens. Dias antes de voltar, enviei um e-mail para ela pedindo que dessa vez se certificasse de avisar às companhias aéreas sobre a cadeira para que não passássemos pelos mesmos transtornos na volta. Ela me disse que estava tudo certo com a KLM, mas que a Aer Lingus não fazia o transporte de baterias líquidas. Para resolver a situação ela me fez a indecente proposta de deixar minhas baterias na Irlanda e comprar outras quando chegar ao Brasil. Que fique claro que ela queria que EU comprasse as baterias, e não a empresa de intercâmbio. É mole ou quer mais?
Segundo ela, o erro foi meu. Eu deveria ter avisado sobre a cadeira porque, claro, como cliente, é minha obrigação conhecer os procedimentos do trabalho dela. Adicione a isso o fato de que, para fazer o pagamento das passagens, tive que comparecer a agencia de intercâmbio para passar o cartão. Ou seja, ela me viu e viu também a cadeira motorizada. Anyways... No fim das contas, consegui um parecer dos engenheiros da Aer Lingus permitindo o embarque das baterias. Dessa forma, correu tudo bem no voo de volta.
Linda. Linda. Linda. A Irlanda é linda. O povo irlandês é muito amável, educado e brincalhão. Os homens são um arraso, do jardineiro ao professor, todo gatos. As pessoas são extremamente atenciosas. Estranhos me saudavam na rua, faziam comentários graciosos (digo isso pela forma como falavam, porque entender o que diziam... necas de pitibiriba), ofereciam ajuda sem que eu pedisse. Enfim, uma imagem completamente diferente da que eu tinha do povo europeu em geral. Fiz vários amigos e ainda de quebra um namoradinho irlandês mais fofo do universo hehe.
O clima, realmente, não é dos melhores. Quase sempre úmido e frio. Chuva todo santo dia e o céu quase sempre nublado o que pode ser um pouco deprimente. Mas a minha felicidade era tamanha que nem isso me abalava. Eu simplesmente não conseguia crer no quão feliz eu me sentia de estar ali. Acordava e dormia sorrindo, parecendo que havia um cabide enganchado na minha boca.
As aulas eram perfeitas, super divertidas e o mais interessante é que havia pessoa de todas as partes de mundo. A University of Limerick (UL) é um sonho, mas como sou suspeita para falar, vou contar uma coisa. Em junho deste ano o meu antigo chefe esteve na Irlanda para tentar formar alguns acordos de cooperação no país. De tanto que falei, ele resolver ir à UL. Achei que ele iria dizer que gostou e tals, mas o que ele disse me surpreendeu, isso porque o cara já visitou várias universidades ao redor do mundo. Ele disse que a UL é a universidade mais linda que ele havia visto em toda vida.
As aulas eram perfeitas, super divertidas e o mais interessante é que havia pessoa de todas as partes de mundo. A University of Limerick (UL) é um sonho, mas como sou suspeita para falar, vou contar uma coisa. Em junho deste ano o meu antigo chefe esteve na Irlanda para tentar formar alguns acordos de cooperação no país. De tanto que falei, ele resolver ir à UL. Achei que ele iria dizer que gostou e tals, mas o que ele disse me surpreendeu, isso porque o cara já visitou várias universidades ao redor do mundo. Ele disse que a UL é a universidade mais linda que ele havia visto em toda vida.
Quanto a acessibilidade, acho que já mencionei aqui que como a Irlanda faz parte do velho continente, há muitos prédios antigos e sem elevadores que dificultam o acesso para cadeirantes. Comparando com o Canadá, o país não é 100% acessível, mas comparando com o Brasil era o paraíso. A única dificuldade que tive lá foi que, em alguns locais e no caminho da universidade para a minha casa, havia alguns batentes. Alguns, a cadeira motorizada consegue subir, outros já são mais altos e eu precisava de ajuda para subir.
Foi lá que eu saí sozinha pela primeira vez na vida. Bom, em partes. Porque sair, sair mesmo foi no Canadá. Mas na Irlanda Nelma me colocava no ônibus em Castletroy onde morávamos e o sweety – o boyfriend – ia me buscar no ponto do centro da cidade. É que, veja bem, eu tenho um senso de direção é extraordinariamente bitolado. O sweety vive dizendo que vai me dar um GPS porque, segundo ele, até dentro de casa eu me perco. Namorado caluniador.
Fora isso, a casa em que eu fiquei era de dois andares. Tinha um quarto em baixo que ficou para mim e três quartos em cima. Demos muita sorte de conseguir uma casa enorme por um valor legal, já que Castletroy é um bairro universitário em Limerick e como era verão, a maioria dos estudantes estavam fora da cidade. Na entrada, o meu landlord (na foto abaixo) fez uma rampa para mim. O único problema era o banheiro que ficava no primeiro superior. No andar de baixo havia apenas um banheirinho com um vaso e uma pia. Mas não tinha como tomar banho lá. Daí o meu landlord, fofo que ele era, conseguiu uma autorização da universidade para que eu pudesse tomar banho no banheiro do ginásio de esportes. Aí ficou tudo lindo.
O Language Centre da universidade onde eu estudava oferecia passeios aos pontos turísticos do país. Viajávamos quase todos os dias à tarde, depois das aulas e, aos sábados o dia todo. Eles contrataram uma empresa que trabalha com ônibus acessíveis e o resto foi só felicidade. Os ônibus da cidade também eram todos acessíveis.
Na época dessa viagem eu tinha um outro blog que, por agora, está aposentado. Mas nele eu escrevi vários posts enquanto estava na Irlanda (um post por semana), contando um pouco sobre a rotina lá e minhas impressões. Para quem tiver interesse é só clicar aqui.
No próximo post contarei sobre o intercâmbio para o Canadá. Ou você ta achando que depois do “não” do college mau eu me dei por vencida?
Continua...




Paula, tô que queixo caído com a história da bateria da sua cadeira de rodas. Que cara de pau da funcionária da agência de viagens, cara de pau mesmo! Ainda bem que você e sua amiga pelo menos chegaram a tempo pras aulas, imagina se vocês perdessem um dia? Mas que ótimo que a Irlanda pelo menos é mais preparada que o Brasil e você podia se aventurar sozinha, né? Muito bacana o curso organizar os passeios, no meu caso também foi assim. Muito prático, pois não temos que ficar planejando nada. Estou muito curiosa pra saber sobre o Canadá. Ah, tenho uma pergunta. Já que você precisa despachar sua cadeira de rodas você recebe uma do aeroporto, né? E no avião? Você tem um lugar mais na frente, como é? Por que acho que seria muito complicado te colocarem num assento do meio pro fim do avião, né?
ResponderExcluirbeijos
Oi Marcela, que bom abrir aqui e ler um comentário seu. E sim, um absurdo em cima da outro com essa agência e com algumas companhias aéreas. Mas no fim tudo deu mais que certo.
ExcluirSobre as suas perguntas, na maioria dos casos a cadeira só é despachada para o bagageiro quando já estou na porta do avião. Aí passo para uma cadeirinha própria do avião. Ela é mais estreita então consegue passar pelos corredores. Normalmente eles me colocam nas cadeiras preferências que são aquelas da primeira fileira, mas também já fiquei quase no meio do avião. Realmente o melhor e mais prático é ficar mais na frente, mas atrás também acontece.
beijos =*