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Relatos de uma cadeirante em viagem de intercâmbio - Parte Final

Teimosa que sou, antes de ir para a Irlanda, me inscrevi novamente no ELAP para o Canadá. O mesmo que dá outra vez não deu certo. A diferença foi que, dessa vez, conversei com a com a assessora internacional da minha universidade e decidimos contatar outro college com o qual tínhamos convênio e verificar a possibilidade de me receberem lá. Fizemos isso antes mesmo da pré-seleção. 

Àquela altura, claro, eu já estava com uma péssima imagem do Canadá e me candidatei apenas porque acho que, no fundo, não havia conseguido engolir tudo o que me aconteceu da outra vez. Mas, para a minha grande surpresa, eles tiveram uma reação bem diferente da do outro college, o qual, por questões didáticas – e para revidar – chamarei aqui de "o college mau" (muah-ha-ha). 

Conversamos sobre a possibilidade de eu me candidatar a bolsa e ir para lá e eles disseram que não haveria problema algum e que ficariam muito felizes em me receber. Fiz a pré-seleção, passei (em primeiro lugar, mais uma vez), me candidatei à bolsa e, outra vez, ganhei. Conversei com Priscilla (aquela mesma do post/declaração-de-amor Minha Pri) que também havia ganhado a mesma bolsa. O problema é que Priscilla havia sido designada para outro college, o college mau. Como já contei aqui no blog, eu estava morta de medo de me aventurar a viver sozinha por quatro meses. Sempre tive alguém comigo por onde quer que eu fosse, só que dessa vez não seria possível ter acompanhante. Mas a Pri, meu amor pra vida toda, topou trocar de college e me dar uma força no que eu precisasse. Se olharmos bem, um caso de salvação mutua: ela me salvou de estar largada no mundo e jogada às traças e eu a salvei de ir para um collegezinho xexelento.

Voltando ao que interessa, em janeiro desse ano, fomos para o College of the Rockies, na British Columbia, Canadá. Eu viajei sozinha mesmo porque a Pri foi um dia antes. Nesse post aqui conto os detalhes da viagem de avião para pessoas com dificuldade de locomoção (como a ida ao banheiro, por exemplo). Essa foi a minha primeira viagem sozinha e tudo correu bem. Sobre a cadeira, como contei nesse outro post aqui, troquei as baterias por outras a gel. Assim, não tive nenhum problema com a TAM e nem com a Air Canada.


No Canadá, vivíamos numa residência estudantil. Tudo era bem acessível e as coisas que precisavam ser melhoradas eu conversava com o pessoal do college e em pouquíssimo tempo tudo era ajeitado. Eles sempre foram muito atenciosos e cuidadosos comigo e fizeram de tudo para que a minha estadia lá fosse agradável. Exemplos: como fui em pleno o inverno canadense, eles retiravam a neve do estacionamento que ligava o college à residência, porque a neve é meio como areia e faz a cadeira atolar; como contei no post sobre a ABNT, eles colocaram uma barra articulada que me permitia usar o banheiro sozinha; trocaram, também, a torneira da pia que era antiga e duríssima de se abrir e ainda regularam a porta do POD (que é como chamam cada apartamento na residência), que por ter aquele sistema de fechar sozinha, era bem pesada de abrir o que complicava muito as coisas quando eu estava sozinha.

O legal do Canadá, ao menos nessa região onde eu estava, é que praticamente todo mundo tem um truck. Eu adorava essa parte porque era só jogar a cadeira no fundo e eu ia pra todos os lugares sem me preocupar em desmontar a cadeira. Essa parte sempre me deixava/deixa tensa porque não é todo mundo que sabe fazer isso e alguns problemas podem acontecer, principalmente por ser uma cadeira motorizada. No mais, as pessoas eram super amigáveis e atenciosas e Cranbrook, apesar de ser uma cidade pequena, é completamente acessível.


Há três meses retornei do Canadá e eu, que achava que nem ia gostar de lá porque fiquei extremamente decepcionada com o tratamento que recebi do college mau, chorei por uma semana depois que voltei ao Brasil. Mas eu digo chorar mesmo, de colocar os meus pais em desespero. A verdade é que, como já havia contado aqui, me acostumei muito às facilidades que um país acessível oferece às pessoas com deficiência e, quando cheguei aqui, me senti presa, sem poder sair, com medo de tudo. Enfim, isso é assunto para outro post. Mas acho que, sobre essa história, consegui "resumir" tudo.

Fim.

Até hoje quando penso em tudo isso que me aconteceu acho impossível não notar uma sincronia perfeita em todos os fatos. Como? Se eu tivesse ido para o Canadá da primeira vez em que ganhei a bolsa de estudos, eu não teria começado a trabalhar na Assessoria Internacional da minha universidade, o que rendeu grandes frutos à minha carreira profissional; não teria ido à Irlanda e, consequentemente, vivido tudo o que vivi por lá; não teria conhecido o meu namorado que me faz tão bem, que me ensina tanta coisa bonita todos os dias; por fim, não teria ido à Cranbrook e conhecido todas as pessoas lindas que por lá conheci. Talvez no outro college eu tivesse sido infeliz, porque é clara para mim a diferença no tratamento que recebi de ambos os colleges. 

Conheço uma brasileira que foi para o college mau e ela me disse que por diversas vezes se sentiu humilhada por eles. Segundo ela, por ser bolsista e, ainda mais, porque a bolsa provém do governo deles, a tratavam como se eles tivessem fazendo um favor ao deixá-la estudar lá. Para não ser injusta, também preciso dizer que conheço pessoas que fizeram intercâmbio nesse college e simplesmente amaram. Enfim, cada caso é um caso. Mas não deixo de pensar que, talvez, se tivesse ido para esse college em 2011, considerando todas as expectativas que havia criado, eu tivesse me decepcionado feio e desistido de viajar mais. E, como diz o sweety, travel is an education in itself (viajar é por si só uma educação).

Hoje não sou mais a mesma pessoa. Eu cresci em inúmeros quesitos e aprendi coisas que levarei para a vida toda. Será que isso tudo foi fruto do acaso? Você vai tirar suas próprias conclusões. Mas para mim a resposta é clara: Deus sabe o que é melhor para a gente. Hoje sei que quando algo não dá certo é porque não era para ser. Esses fatos apenas reforçam o cuidado genuíno que o Senhor tem com a minha vida e a certeza de que não preciso me preocupar because very little thing is gonna be alright.

Comentários

  1. Que legal a sua experiência. Você teve que pedir ajuda em muitas coisas no cotidiano ou onde v ficou tem bastante acessibilidade?

    Kisu!

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    Respostas
    1. Oi Bah,obrigada pela visita. Curti bastante o seu blog.

      Então, lá eu levava a vida de forma tão independendo que isso acabou me abalando muito quando voltei. Tudo era acessível e, nas poucas coisas em que eu ainda precisava de ajuda, como cozinhar e tals, minha amiga Priscilla e outros amigos que fiz lá me ajudavam.

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